Foto da capa

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- O primeiro hino carnavalesco brasileiro

Na Idade Média, Portugal costumava comemorar o período carnavalesco com brincadeiras que variavam de aldeia para aldeia. Estas brincadeiras eram denominadas "entrudos" e chegaram ao Brasil provavelmente com os portugueses, no ano de 1641, na cidade do Rio de Janeiro.

No início era um carnaval de água com limões de cheiro (pequenas bolas de cera recheadas de águas perfumadas), gamelas de água, seringas de folha de flandres, suficientes para transformar as ruas do Rio de Janeiro em um grande mar. Era comum misturar nesta brincadeira a farinha de trigo, o pó de sapato, alvaiade (derivação do chumbo que misturado a uma cola de gelatina, cartilagem de peixe ou pele de coelho, resultava na base para o início da pintura artística), e o piche para completar o banho coletivo. A brincadeira durou até 1853, quando o chefe de polícia proibiu o entrudo considerando uma festa grosseira e violenta. Mas, enquanto o entrudo era reprimido nas ruas, a elite do Império criava os bailes de carnaval em clubes e teatros.

Jogos durante o entrudo no Rio de Janeiro - Aquarela de Augustus Earle, c.1822

Esta festa na rua ainda não apresentava melodia e nem ritmo. Era uma disputa de barulhos, até que em 1852, o português José Nogueira de Azevedo Paredes (sapateiro) lançou a ideia, organizando um grupo que tocando bombos e aos gritos de “Zé Pereira”, criava a percussão do carnaval. Em 1869, a Companhia do empresário Heller levou esta novidade para o Teatro e as novas sociedades carnavalescas, passaram a adotar durante o ingresso nos salões aos gritos de “Zé Pereira”.

E viva o zé-pereira!

Pios que a ninguém faz mal

E viva a bebedeira

Nos dias de carnaval!

Zim, balada! Zim, balada!

E viva o carnaval!

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Já no final deste século, surge em 1880 o “cordão”, um tipo de agremiação recreativa exclusivamente para os festejos do carnaval. Foi certamente, um fenômeno que registrava mais de 200 cordões nos bairros do Rio. Estes eram identificados por suas cores definidas e possuíam uma percussão cadenciada. Ainda sem definição musical para o carnaval, ouviam-se cantigas de roda, hinos patrióticos, canções folclóricas, tudo, até mesmo marcha fúnebre. É bom lembrar que os cordões foram os responsáveis pela origem dos blocos carnavalescos e das escolas de samba.

Foi no início de 1899 no bairro Andaraí que Chiquinha Gonzaga (Francisca Edwiges Neves Gonzaga - 17 de outubro de 1847 — 28 de fevereiro de 1935), compositora, pianista e regente brasileira, teve a inspiração para durante o ensaio do Cordão Rosa de Ouro, compor uma música para os mesmos.

Ó abre alas!

Que eu quero passar (bis)

Eu sou da lira

Não posso negar (bis)

Ó abre alas!

Que eu quero passar (bis)

Rosa de Ouro

É que vai ganhar (bis)

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Não havia nenhuma composição feita especialmente para este fim, portanto, esta foi a primeira canção carnavalesca brasileira, uma marcha-rancho. Vale lembrar que somente 20 anos mais tarde, é que a prática da música de carnaval veio a oficializar-se.

chiquinhaSegundo Edinha Diniz “Ó Abre Alas, confirma o carnaval como festa popular e promovia o seu casamento com a música urbana. Parecia inevitável que carnaval e música se encontrassem num determinado momento dos seus desenvolvimentos específicos para formar o grande espetáculo da nacionalidade brasileira. Chiquinha Gonzaga foi apenas a promotora desse encontro”.

Se tiver interesse no campo de pesquisa, recomendo a leitura da obra “Chiquinha Gonzaga, uma história de vida” de Edinha Diniz - Editora Rosa dos Tempos 1999. (ISBN: 85-01-64713-6). A autora, Edinha Diniz é pós-graduada em ciências humanas pela Universidade Federal da Bahia e publicou, entre outras obras, biografias de Cartola, Machado de Assis e Jorge Amado. Hoje, atua na área de pesquisa, desenvolvendo projetos especiais sobre música brasileira.

Bem, é isto ai, paz e luz para todos, boa leitura e bom carnaval.

Por Amilto M. Passos

6 comentários:

  1. Blz, Amilto M.Passos, sempre pesquisando coisas interessantes. Abraço!

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  2. Sebastião Aparecido6 de março de 2014 14:12

    Amigo passos muito importante esta informação, Porque muitos não conhecem como surgiu a festa carnavalesca.
    Legal, continua com esta força, abraços para você e família.
    Sebastião Aparecido

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  3. Olá, primeiramente quero parabenizar pela matéria que eu gostei muito e lhe desejar muita saúde para o senhor e toda a sua família que a paz de jesus esteja sempre em vossos corações..
    Satyro.

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  4. jobiradeirosribas6 de março de 2014 14:27

    VALEU COMPANHEIRO! FORTE ABRAÇO!

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  5. No clima do carnaval, rssss...virou até historiador !!!
    Bem legal a pesquisa, com a ideia bem abrangente da origem e início no Brasil.
    Aproveite bem a oportunidade de conhecer essa manifestação popular, muito bem representada pelos cariocas .
    Abração.

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  6. Um emocionante relato histórico. Um verdadeiro resgate que lança luz ao que hoje entendemos por carnaval. Um grande abraço, Mestre Passos.

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