Muitas vezes, ao estudar O Livro dos Espíritos, especialmente o Capítulo VI – Vida Espírita – Espíritos Errantes, surge uma dúvida comum: quando Kardec fala em “Espíritos errantes”, está se referindo a Espíritos que “erraram”, no sentido moral? A resposta é não. Na Doutrina Espírita, o termo tem sentido existencial e geográfico: designa o Espírito que está desencarnado, no intervalo entre suas existências corpóreas. Para melhor compreensão, analisemos o tema em ordem cronológica.
ANTES DA CODIFICAÇÃO: A RAIZ DA PALAVRA
A palavra “errante” vem do latim errans, errantis, e do verbo errare, que possui dois sentidos: vagar e enganar-se. Daí nasce a confusão. Kardec não usa o termo com sentido de “pecador” ou “que cometeu erro moral”. Ele o emprega para descrever um estado transitório: o Espírito que vagueia pelo espaço sem corpo físico.
1857 - O LIVRO DOS ESPÍRITOS: AS PRIMEIRAS DEFINIÇÕES
Na obra básica, a relação entre “Espírito errante” e “erraticidade” aparece de forma clara.
Questão 224: “O que é a alma, nos intervalos das encarnações? — Espírito errante, que aspira a um novo destino e o espera.”
Questão 225: “A erraticidade é, por si mesma, um sinal de inferioridade entre os Espíritos? — Não, pois há Espíritos errantes de todos os graus.”
Questão 234: trata dos “mundos transitórios”, que servem como estações de repouso para os Espíritos errantes. A resposta usa os termos de forma intercambiável e diz: “Sim, há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que lhes podem servir de habitação temporária, espécies de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiado longa erraticidade, estado este sempre um tanto penoso.”
Aqui já fica claro: Espírito errante é o sujeito; erraticidade é o estado ou período em que ele se encontra.
1861 - O LIVRO DOS MÉDIUNS: A DEFINIÇÃO FORMAL
O Livro dos Médiuns, no Capítulo XXXII – Vocabulário Espírita, que Kardec apresenta a definição mais direta:
Erraticidade — Estado dos Espíritos errantes, ou erráticos, isto é, não encarnados, durante o intervalo de suas existências corpóreas.
Essa definição encerra a dúvida: erraticidade não é castigo, nem sinal de culpa. É a condição normal do Espírito desencarnado que aguarda nova encarnação ou cumpre alguma missão.
EDIÇÃO POSTERIOR - A ERRATA DA QUESTÃO 226
Na 5ª edição francesa em 7 de setembro de 1861, de O Livro dos Espíritos, Kardec fez uma correção importante na errata referente à questão 226: “Entre os Espíritos não encarnados, alguns há que têm missões a cumprir e ocupações ativas, gozando de relativa felicidade, enquanto que outros vagueiam na incerteza. São estes últimos os errantes, na verdadeira acepção do termo.”
Em sentido amplo, todo desencarnado está na erraticidade; em sentido restrito, “errante” é aquele que vagueia na incerteza. Espíritos com missões ativas, mesmo desencarnados, não se incluem nessa acepção restrita. Isso mostra que o termo não está ligado à ideia de erro moral.
SÉCULO XX - VOCABULÁRIO DA FEB E LITERATURA COMPLEMENTAR
Outras fontes kardecistas confirmam essa explicação.
Vocabulário da FEB: define “Erraticidade” exatamente como o “Estado dos Espíritos errantes, ou erráticos, isto é, não encarnados, durante o intervalo de suas existências corpóreas.”
Literatura complementar: obras psicografadas por Chico Xavier, como Nosso Lar, ditada pelo Espírito André Luiz, descrevem a vida dos desencarnados e utilizam amplamente o conceito de erraticidade para retratar esse estado e seus diferentes planos de vivência.
O QUE FICA PARA O ESTUDANTE ESPÍRITA
Espírito errante não é “Espírito que errou”.
Erraticidade é o estado do Espírito não encarnado, no intervalo entre encarnações.
A erraticidade não constitui inferioridade, pois há Espíritos errantes de todos os graus.
O erro moral pode até ser analisado durante a erraticidade, mas não é o que define o Espírito como errante.
A relação entre “Espíritos errantes” e “erraticidade” não é interpretação: é conceito estabelecido na Codificação Espírita.
Portanto, quando lemos “Espíritos errantes” na literatura do Codificador, Allan Kardec, compreendemos que se trata do Espírito que, temporariamente sem corpo físico, segue seu caminho entre uma encarnação e outra — podendo estar em aprendizado, repouso, missão ou incerteza.
Por Amilton Passos
Pesquisa, verificação, validação e edição final.
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Fontes de pesquisa:
Allan kardec - O Livro dos Espíritos;
Allan kardec - O Livro dos Médiuns;
Vocabulário da FEB e Literatura complementar kardecista.
