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- Todos os ângulos da onda de tempestades

O Sul e o Sudeste do Brasil, o Uruguai, o Norte da Argentina e o Sul do Paraguai experimentaram neste começo de semana uma grave onda de tempo severo que pode ser considerada uma das mais importantes da história recente da região. Condições atmosféricas explosivas para instabilidade geraram um cenário muito favorável para eventos bastante severos como tornados, vendavais intensos, granizo grande e chuva torrencial. São fortes os indícios de tornados no Norte do Uruguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Missiones na Argentina. O mais grave episódio deu-se na fronteira do Brasil com a Argentina, entre a província argentina de Missiones e o Oeste catarinense. Imagens de radar do Instituto Técnico Simepar do momento do tornado na região mostram uma célula que em uma hora (das 20h30 até 21h30m) avança de Missiones, onde um tornado matou 10 pessoas em San Pedro, para a região de Guaraciaba no Oeste catarinense, também atingida por um tornado que matou outras quatro pessoas. A sequência de imagens do radar meteorológico reforça ainda mais a suspeita de que o tornado de Guaraciaba pode ter sido o mesmo de San Pedro na Argentina, uma vez que os dois fenômenos extremos foram gerados pela mesma célula de tempestade. Relatos dão conta que a faixa de destruição no terreno, em alguns pontos, chega ter 800 metros, sugerindo um "tornado wedge" de mais longa duração e intenso.

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Durante toda a segunda-feira a mídia usou imagens de satélite para mostrar que havia condições favoráveis para a ocorrência de tornados na região, mas é importante lembrar que imagens de satélite por si só não se prestam para este tipo de avaliação, sendo a ferramenta do radar a mais importante. Muitas vezes o satélite indica topos muito frios, sinal de nuvens de elevado desenvolvimento, mas em superfície não há qualquer fenômeno adverso. Não foi o caso da noite de segunda-feira. Os topos das nuvens eram tão frios que extrapolaram a gradação da imagem de satélite. Na região, ocorriam os temporais mais intensos naquele horário como o tornado no Oeste catarinense e no Norte argentino (clique para ampliar).

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Nos Estados Unidos, a tecnologia hoje existente, usados dados de nível III da rede de radares meteorológicos Nexrad permite a visualização de células tornádicas com assombrosa nitidez em 3D. Não contamos, contudo, com estas facilidades no Brasil, o que não nos impede de tentar visualizar o que ocorreu também em 3D. Foi o que buscamos para levar a vocês mediante a geração de imagens a partir da análise das 0Z de 8 de setembro, momento do tornado no Oeste catarinense, do modelo WRF. Os mapas mostram a divergência de fluxo, vento e umidade sobre o Sul do Brasil (clique para ampliar).

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Um fator que pode ter contribuído para acentuar ainda mais a instabilidade associada ao avanço do sistema frontal da tarde para a noite de segunda-feira foi a presença maior de umidade na atmosfera resultante das precipitações ocorridas entre a madrugada e a manhã daquele dia na região mais afetada por tempo severo no Noroeste gaúcho e no Oeste catarinense. Na onda de tornados de outubro de 2000, no Rio Grande do Sul, os temporais severos da noite de 11 de outubro foram precedidos de instabilidade mais cedo no dia e fluxo de vento Leste, transportando umidade em baixos níveis. Na manhã do dia do tornado (à noite) em Guaraciaba, a região já tinha enfrentado pancadas de chuva e granizo isolado. A atmosfera já se encontrava extremamente instável a ponto de ter se formado já de manhã na região um enorme aglomerado de nuvens carregadas (clique sobre a imagem de satélite abaixo em alta resolução para ampliar). Com a melhora posterior do tempo e o forte aquecimento diurno, com máximas de 32ºC a 33ºC no Noroeste gaúcho, a instabilidade atmosférica se potencializou ainda mais antes da chegada da frente fria.

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Uma outra imagem extraordinária que apenas a MetSul Meteorologia traz para você. O satélite da NASA usado para estudar a estrutura vertical das nuvens, que faz um verdadeiro "corte vertical" de determinados pontos da atmosfera, conforme a órbita, registrou a onda de tempo severo no Rio Grande do Sul. A órbita do satélite, que conta com equipamentos que funcionam como um verdadeiro radar a partir do espaço, ocorreu no Sul do Brasil às duas e meia da tarde de segunda-feira, no exato momento em que se produzia a série de tempestades severas, tornádicas em alguns pontos, na região entre Bagé e Pelotas (clique sobre a imagem para vê-la ampliada e com outros detalhes), verificando-se o intenso downdraft no flanco Norte.

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A coincidência histórica é que esta severa onda de tempestades se produziu na mesma época em que ocorreu o pior tornado até hoje na América do Sul, o de Encarnación, no Paraguai, em 20 de setembro de 1926 com saldo de 400 mortos, segundo os relatos da época. (Produção de Alexandre Aguiar com modelagem numérica de Marcelo Albieri).

Autor: Luiz Fernando Nachtigall - Publicado em 09/09/2009 07:01

Enviado por Ronimar Costas dos Santos - PU3 CVB

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